Nesta edição do SEMANÁRIO DA PORRALOUQUICE ELEFÂNTICA:
Um gringo maluco e sua obsessão pelo disco In Utero, do Nirvana
A importância da Revista Pé de Cabra para os gibis brasileiros
A história de como os quadrinhos e os vermes encerram relacionamentos
Um rolê aleatório com o Neo do Matrix e Rubens Barrichello
Aaron Rash e sua obsessão nirvanista
Não seria muito inteligente utilizar esta seção da newsletter para falar sobre um álbum da magnitude de In Utero, a cartada final que o Nirvana tirou da manga em 1993. Afinal, todo mundo conhece, já ouviu e não haveria mais o que dizer sobre esse disco… ou pelo menos era isso que a gente achava.
Em novembro de 2021, o produtor musical Aaron Rash iniciou no YouTube, para todo mundo ver, sua missão de vida: uma audiófila e obsessiva busca por reproduzir com total, plena e absoluta exatidão a sonoridade das guitarras gravadas por Kurt Cobain em seu disco derradeiro.
Desde então, acompanhamos a saga de um maluco que não se limitou apenas a fazer gravações, mas construiu uma trajetória marcada por entrevistas com pessoas que trabalharam com o Nirvana, experimentos avançados em eletrônica, luthieria e visitas ao estúdio Pachyderm, onde o In Utero foi gravado, em Minnesota.
Um dos momentos mais marcantes dessa via-crúcis de Aaron Rash, porém, aconteceu no início de 2024, quando ele gravou, sem que ninguém pudesse prever, aquela que seria a última entrevista de Steve Albini, produtor do In Utero e lenda suprema dessa ciência inexata e maravilhosa que é a Produção Musical, falecido em maio daquele ano.
O canal de Rash, para além dos méritos técnicos - ele já chegou umas seis vezes diferentes ao som definitivo das guitarras do In Utero, mas segue encontrando pelo em ovo - é também uma experiência de entretenimento muito competente. Com uma estética cinematográfica, que equilibra música e imagem de forma simbiótica, o trabalho de Aaron é algo que costumo assistir tanto quando estou cercado pelas minhas guitarras dentro do estúdio, quanto nos momentos em que estou deitado no sofá, amassando alguma janta improvisada.
Revista Pé de Cabra
Se hoje as antologias de quadrinhos brasileiros estão em baixa, não faz muito tempo que elas eram o que havia de melhor no mercado nacional. Entre a metade da década de 2000 e o final da década de 2010, uma infinidade de publicações surgiu e apresentou autores maravilhosos ao público. Dentre todas, não há dúvidas de que uma das melhores e mais importante foi a Revista Pé de Cabra, criada por Carlos Panhoca.
Entre 2018 e 2023, foram cinco edições. Já na primeira, de março de 2018 (hoje esgotada), a Pé de Cabra deu o tom do que viria a ser: um catálogo de outsiders do mercado de quadrinhos brasileiros. Foi em suas páginas que descobri Victor Bello e Emilly Bonna, Diego Gerlach e revisitei a carreira de Pablo Carranza, autor que, no melhor estilo Daiane dos Santos, deu um duplo twist carpado, transformou-se completamente e, por sinal, acaba de editar meu próximo gibi, O Dragão de Aço.
Além disso, durante os anos em que me meti a escrever e desenhar tirinhas, a Pé de Cabra foi um grande incentivo: quando faltava inspiração, pegava uma de suas edições, sentava ao trono e permanecia ali retendo possibilidades narrativas até sentir que minhas perninhas ficassem dormentes.
A publicação organizada por Panhoca foi um divisor de águas ao me mostrar autores que, assim como eu, não iam desenhar uma Graphic MSP e nem seriam lançados pela Comix Zone ou pela Pipoca & Nanquim, mas que nem por isso mereciam ser ostracizados.
Por seu caráter antológico, a PdC, que traz os nomes dos quadrinistas envolvidos funcionalmente posicionados no rodapé de suas respectivas páginas desenhadas, também serviu como uma espécie de caderninho telefônico do Gibi Podre: foi ali que descobri várias pessoas que viriam a ser bons amigos.
Composta fundamentalmente por narrativas curtas, a Revista Pé de Cabra nos apresentou muitas HQs emblemáticas e experimentais. O desafio de resolver uma trama inteira em até seis páginas, tamanho limite das histórias, força os autores a encontrar saídas criativas. Isso, num mercado editorial em que não há limitação técnica nenhuma, vide os acabamentos cada vez mais luxuosos das publicações associadas ao mainstream das HQs brasileiras, é algo estimulante e raro.
A Revista Pé de Cabra foi tão influente que deu origem a uma espécie de sucessora espiritual: El Perro Fêo, da Escória Comix, cuja produção se expandiu a apenas três volumes, dos quais pelo menos dois acompanhei mais ou menos de perto, devido à minha amizade com Lobo Ramirez. Isso, porém, é assunto para um próximo capítulo da newsletter!
Quarentênia e esfregões solitários.
No início da minha carreira com HQs, eu era profundamente idiota. Naquela época, ainda achava que o mercado de quadrinhos brasileiros, assim como alguns dinossauros editoriais paulistanos nos vendem até hoje, era um mar de rosas. Por isso, costumava mandar mensagens pra deus e o mundo achando que seria acolhido ou qualquer merda assim.
Eu estava apenas começando a conhecer o Gibi Podre e tinha descoberto a Revista Pé de Cabra, publicação que mudou tudo pra mim, há pouco tempo. Foi nesse contexto que acabei respondendo aos stories de uma moça que também era jornalista e tinha lançado um livro sobre quadrinhos que colecionava avaliações positivas no Universo HQ, elogios do Sidão e despontava como um grande talento made in BR.
Vamos chamá-la de… Binalda.
Binalda e eu começamos a nos corresponder com frequência, marcamos um vindouro encontro e tudo parecia bem.
Entre muitas conversas sobre o futuro do jornalismo e narrativa gráfica, os ventos da sorte pareciam apontar para aquele que é o estado máximo de alegria do homem moderno: sexo com uma mulher extremamente inteligente e igualmente muito gata.
Foi aí que chegou o dia 12 de março de 2020 e, decretada a porra da pandemia, ficamos “cada um no seu quadrado”, apenas aguardando as deliberações do corno do presidente e ansiando pelo avanço das pesquisas em torno da vacina.
Apesar disso, durante os dois ou três primeiros meses de isolamento, parecia que eu e Binalda estávamos muito cuti-cuti: mensagenzinhas de bom-dia, áudios fofos, fotinhas e tudo mais. Infelizmente, a verdade é que nós, assim como o resto do mundo, estávamos mesmo é endoidando mais que o Batman…
A essa altura, eu já tinha descoberto a Escória Comix, os gibis de Lobo Ramirez e Victor Bello, e de repente todo aquele verniz de cordialidade e acolhimento do mercado editorial brasileiro derreteu tão rápido quanto um iceberg de fezes na praia de Boa Viagem. Algo muito virulento e enlouquecido havia acordado dentro de mim.
Talvez até como um metacomentário sobre essa cólera interior, concebi minha primeira tirinha: Quarentênia. A piada é de uma estupidez atroz, como só alguém da minha estirpe poderia conceber: a tira gira em torno de uma tênia, verme conhecido como Solitária, que, no contexto pandêmico de isolamento social, fazia todo sentido.
Mandei a primeira tirinha da série para Binalda, que riu educadamente.
Algumas semanas depois, a personagem da Quarentênia, a quem nomeei Isaltênia, uma homenagem à canção Isaltina, do cantor Falcão, que também trata de uma Solitária, havia se tornado um sucesso no Instagram.
Nos roteiros, eu trabalhava vários mitos populares do Nordeste, como a história de atrair o verme para fora do cu das pessoas com um prato de goiabada, e a capacidade de regeneração da bicha quando cortada ao meio. Todo mundo curtia, e eu dividia minha alegria pelo sucesso de Isaltênia com Binalda a cada nova tira publicada.
Feliz com a repercussão, afinal, foi a primeira obra de arte feita por mim que realmente deu em alguma coisa, fui acometido por um grande surto de inspiração. Chegou um ponto em que desenhei quase quinze tirinhas da Quarentênia numa única tarde ociosa.
Como já havia se tornado comum, mandei para minha consorte e fiquei no aguardo de seus habituais comentários cheios de charme, elegância e inteligência. Porém…
Acho que causei uma overdose em Binalda.
Não sei se foi a tirinha em que Isaltênia enfrenta um dia difícil após seu hospedeiro ter comido beterraba, se foi a história em que ele enfia um pepino no cu por diversão ou somente obra do caos circunstancial, mas o fato é que Bibi só me respondeu rispidamente:
“Para de me mandar desenhos desse bicho dentro do cu dos outros, por favor! Eu não aguento mais!”
Acho que isso estava engasgado na garganta dela desde a primeira tira…
Tudo se acabou aí. Gradualmente, paramos de nos falar enquanto uma leve tensão se abrandava. Anos mais tarde, nos encontramos num evento. Foi até ok, mas depois ela me excluiu dos amigos do Instagram.
Eu finalmente havia entendido que, assim como o culto de domingo para os crentes, o ambiente do Gibi Podre era ótimo para os envolvidos, mas não pegava muito bem com o mundo exterior. Desde então, percebi que, como nas palavras do mesmo Falcão que compôs Isaltina, os quadrinhos pôdis seguem aquela velha máxima:
“A mão que joga a pedra é a mesma que apedreja!”
Rubinho Barrichello, Ruimderson Nunes, um anão igual a Sério Malandro, Felipe Massa e o ator Marcus Jeeves. Há uma história por trás dessa imagem, mas certamente ela não é tão boa quanto o retrato em si. Esse é o tipo de situação em que, quanto menos você souber, melhor.













