Por que o quadrinista independente vende tanta quinquilharia junto com seus gibis?
A grande dificuldade de confrontar a realidade que é se autopublicar num mundo onde a maioria das pessoas não lê, mas compra muito bonequinho.

Já virou carne de vaca nós, do meio underground, reclamarmos de problemas de logística e distribuição dos livros, da dificuldade de conseguir o repasse financeiro das comic shops, do monopólio envolvendo a fabricação do papel, da alta do dólar, das panelinhas editoriais concentradas em São Paulo e da impossibilidade de viabilizar projetos mais alternativos via leis de incentivo. À parte de tudo isso, porém, está a maior de todas as merdas: as pessoas não leem.
Como o mercado independente é pequeno e majoritariamente informal, é difícil colher dados. A ausência de registro da maioria das obras e a falta de uma cobertura jornalística direcionada configuram uma realidade econômica quase criptografada.
De todo modo, é bastante evidente para todos os envolvidos que vender gibis (especialmente os com teor contracultural) no Brasil está cada dia mais complicado. Os motivos são inúmeros. Segundo o site Guia dos Quadrinhos, que, por questões citadas no parágrafo acima, pode conter alguns erros, a Escória Comix lançou doze HQs entre 2020 e 2021, contra apenas quatro publicadas no biênio 2023–2024.
Essa queda no número de publicações se deve, em parte, aos percalços da abertura da Ilha Fantasma, loja do selo que opera em São José dos Campos, mas também ao momento pós-pandêmico, no qual enfrentamos uma baixa nas demandas por compras de livros online.

Nesta nova configuração de mundo, que absorveu o imediatismo desenfreado da época do isolamento social, mas que não dispõe do mesmo tempo livre do dito período, o saldo é uma baixíssima procura por quadrinhos ou qualquer produto cultural que demande tempo e concentração exclusiva.
Pablo Carranza, editor da Mau Gosto Corp., que lançará meu próximo gibi, O Dragão de Aço, comentou em uma das nossas reuniões que tem observado uma predileção do público pelas “tralhas” que levam a marca da Mau Gosto, ao invés dos quadrinhos. O gosto das pessoas por camisas, bonés, chaveiros e bonecos parece confirmar essa tendência ao consumo menos intelectualizado.
A camisa você compra porque não vai sair de casa nu, o chaveiro você adquire pra saber onde estão as chaves quando chegar em casa cocainado às 3h da manhã, e os bonequinhos você merca porque eles ficam ali paradinhos, compondo o cenário de suas fotos pra postar nos stories. É uma lástima, mas é o que tem pra hoje.
Se há um lado bom nisso, é que essa subcultura da tralha está em plena consonância com o aporte estético da famigerada cena do Gibi Podre. Por ser uma movimentação cultural versada na percepção das banalidades e das coisas simples do cotidiano urbano, agregar a produção de miudezas satíricas e merchandisings fuleiros a seus lançamentos é algo que acompanha os autores underground deste país há tempos.

A Escória Comix, que em 2022 já havia comercializado o boneco do Wilson Lanchão, acaba de anunciar a pré-venda de seu novo mascote, o Escorito, que será lançado na feira Alt Toys, organizada pela loja Ugra, em São Paulo. Da mesma forma, a Mau Gosto Corp. e sua estatueta da Coxinha de Rodoviária são um case de sucesso grande o suficiente a ponto de rivalizar com as criações de ninguém mais, ninguém menos que o Roberto Carlos da tranqueira, o capixaba Fábio Mozine, baixista do Mukeka Di Rato e dono da Laja Records.
Mozine, que por sinal publicou, em 2023, meu gibi Una Gira en Sudamerica Com o Conjunto de Música Clinge Merda, baseado num livro homônimo escrito por ele, é o criador do personagem Crackinho. Uma pedra de crack sorridente e feliz, o mascote se tornou uma verdadeira fábrica de imprimir dinheiro, se brincar, mais rentável que o próprio narcotráfico.
O caso do Crackinho é único, uma vez que o personagem já foi transformado em todo tipo de quinquilharia e vende mais que banana na feira. Do pano de prato à joia banhada a ouro, as possibilidades parecem tender ao infinito. Na entrevista que fiz com Mozine em 2023, ele chegou a comentar que, por meio do referido mascotinho, conseguiu atingir muito mais pessoas que com sua música.
O apreço por mascotes é universal, mas no Brasil parece ser mais forte - e ainda mais forte quando o personagem em questão reside, tal qual, por exemplo, o Dollynho, naquele território entre o cômico e o grotesco. A mesma estética que faz com que imagens de muros de borracharia, Mônicas feias e adjacências sejam sedutoras a compartilhamentos e likes infinitos também faz o adulto jovem abrir o bolso.
Na virada do ano de 2024 para 2025, época em que o Elefantes Na Sala passou por uma grande reformulação, o selo ganhou seu próprio mascote: Ganeshor, The Fuleration Cyborg. Foi a partir da concepção do personagem, surgido numa pintura A3 em guache, que o Elefantes começou sua remodelagem.
Passados alguns meses, Ganeshor se tornou a face pública da marca e aparece nas publicidades aqui da newsletter, na comunicação visual do Instagram e em produtos como a novíssima camiseta elefântica. O desafio agora é converter isso em dinheiro, questão que persegue o Elefantes desde seu início.
Minha inaptidão para a publicidade, afinal, estudei jornalismo, um setor que supostamente atua dentro de uma ética compromissada com os fatos e não pode seduzir o leitor, é um dos maiores inimigos do crescimento do selo. Talvez seja por isso que, à exceção das HQs, esta newsletter, mais que qualquer outra das minhas invenções, tem sido o produto mais rentável lançado pelo Elefantes Na Sala em 2025…
Essa reflexão é, no mínimo, irônica, afinal, iniciei este texto com a afirmação de que “as pessoas não leem”. Apesar disso, uma coisa não exclui a outra. Passados cinco meses de newsletter elefântica, estamos beirando os 300 leitores gratuitos, os 20 leitores pagos e ainda falta muito para que isso aqui se torne uma fonte de renda confiável.
Até lá, infelizmente, não sei se tenho capacidade ou conhecimento para fazer outra coisa. O jeito vai ser eu continuar escrevendo e o pior: vocês continuarem lendo.









Interessante, eu venho dessa cultura under desde 2000 fazendo zine e me irritou um pouco no começo dividir mesas com um pessoal que parecia ter vindo dos camelôs da 25 de março, mas logo vi que era mais uma adaptação de sobrevivência. Ainda resisto seguindo apenas com meus gibis e prints, mas devo começar a vender algumas quinquilharias logo mais.