Angine de Poitrine: de onde veio o sucesso dessa miséria?
A banda mascarada que quebrou a internet analisada sob a ótica da neurociência e da comunicação contemporânea.
Angine de Poitrine é uma dupla de música maluca de Quebec, no Canadá. Eles usam fantasias escalafobéticas e tocam instrumentos modificados com temperamento microtonal, que foge ao diatonismo (diatonismo diz respeito às doze notas dó, ré, mi, fá, sol, lá, si e mais seis sustenidos) das escalas convencionais do Ocidente. Faz umas semanas que todo mundo só fala nessa porra.
O duo, formado por dois onanistas tarados por assinaturas rítmicas assimétricas e dissonâncias estranhas, ficou famoso depois que a KEXP, rádio de Seattle muito reconhecida no circuito de música alternativa por seu canal de YouTube, transmitiu o vídeo da performance da banda no festival Trans Musicale, que aconteceu em dezembro do ano passado em Rennes, na França.
Desde então, já são milhões, mi-li-o-nes, de visualizações, compartilhamentos e o crescimento aceleradíssimo de uma comunidade de fãs devotados ao redor de todo o mundo.
O sucesso desse negócio é inacreditável, mas, até certo ponto, compreensível dentro da lógica da comunicação contemporânea.
Por isso, para explicar o fenômeno Angine de Poitrine, é preciso falarmos logo de cara sobre o grande elefante na sala dessa história: as composições da banda são as famosas “músicas para músico”, e o êxito da dupla em conquistar público e crítica reside muito mais no conjunto midiático formado pela equação “(som + imagem) x redes sociais” do que em qualquer outra coisa.
E aqui fica a explicação sobre o que é essa conversa fiada de “música para músico”:
A prática recorrente de um instrumento e o estudo prolongado de ritmo, harmonia, melodia e timbre, as quatro matérias-primas para a criação musical, fazem com que a música deixe de ser interpretada pelo cérebro humano como meras emissões sonoras.
Após vários anos de rock, palco e doideiras, a música passa a ser uma série de estruturas organizadas em padrões de repetição rítmica, harmônica e melódica, que podem ser reconhecidos e antecipados. Esse processo modifica a forma como o córtex auditivo processa os estímulos e como o sistema de recompensa é ativado.
Como consequência, durante a audição de uma composição musical, o cérebro de um músico treinado é capaz de antecipar resoluções rítmicas, harmônicas e melódicas com maior precisão. Essa antecipação ativa o sistema dopaminérgico não apenas no momento da resolução mas já na expectativa dela, intensificando a experiência subjetiva de envolvimento e prazer.
Por isso, a chamada “música para músicos” é justamente aquela que tensiona esses padrões previamente internalizados. Trocando em miúdos, é quando o compositor consegue organizar estruturas musicais tão esquisitas e atípicas que mesmo um cérebro altamente treinado encontra dificuldade em antecipar completamente o que virá a seguir.
Na teoria, isso é lindo, mas, na prática, se traduz em composições e timbres que podem soar estranhos ou pouco agradáveis para ouvintes não treinados. Para o músico, porém, representam uma novidade e uma quebra significativa de expectativa que faz o ato de ouvir música soar “como se fosse a primeira vez”.
Dito isso, o math rock tocado por Angine de Poitrine, embora excelente, não é exatamente nenhuma novidade para os mais aficionados pelo gênero e tende a ser incômodo para os demais “civis”, se é que você me entende. O lance é que o som da dupla possui um grande mérito: está em perfeito equilíbrio com a estranheza do visual da performance.
É difícil dissociar AdP de seu impacto imagético. Prova disso é que “Sherpa”, composição mais ouvida da dupla no Spotify, conta com “apenas” 3,3 milhões de plays, contra 7,6 milhões de visualizações da performance do conjunto transmitida pelo canal de YouTube da rádio KEXP. O detalhe é que a faixa tem somente cinco minutos de duração, contra meia hora do vídeo. E todos nós sabemos que a atenção é o petróleo da internet.
O grande trunfo de Angine de Poitrine está aí. O combo “som + imagem” da dupla é capaz de reter os olhares e ouvidos do sujeito por mais de três segundos antes que ele avance para a próxima publicação de seu feed. Isso favorece o atual algoritmo do Instagram e faz com que o conteúdo seja entregue a mais usuários. É o efeito bola de neve que nós chamamos de viralização.
Além disso, a banda também se destaca por representar uma ruptura simbólica com o ecossistema digital em que o campo das artes está inserido, onde a figura e a personalidade do artista são superexpostas e tão ou mais importantes que a arte em si.
Ao se vestirem com aquelas fantasias medonhas que poderiam ter sido desenhadas pela fantástica Emily Bonna, Angine de Poitrine desperta curiosidade imediata em quem os vê. É um tipo de ousadia midiática que alivia o sentimento de homogeneização sensorial criado pela constante necessidade da classe artística de atender aos requisitos do algoritmo e pela proliferação dos conteúdos de IA.
É, portanto, irônico que a dupla de Quebec tenha se destacado por fazer tudo ao contrário de como manda a cartilha.
Enquanto o visual extravagante dos caras retém a atenção da audiência pelo impacto imediato, o som estranho e dissonante se funde simbioticamente à paisagem e o anonimato dos envolvidos gera uma curiosidade que dura mais que o tempo do vídeo.
Esse conjunto faz com que essa porra seja tão magnética para a maioria das pessoas quanto uma dançarina seminua, uma ato de violência explícita ou vídeos de cachorrinhos. Em tempos de Instagram, isso quer dizer muita coisa.
O saldo dessa história, ao menos até agora, parece positivo. Muita gente está fascinada, e esse é o caminho para que pelo menos uma fração dessa efêmera comunidade de fãs desloque sua atenção para outros artistas igualmente legais, mas eclipsados pela mecânica opressiva e segregadora das redes.
Apesar de tudo, garotinho inocente 40+, não se engane: o sucesso de Agine Poitrine não é musical e tampouco artístico, o sucesso da dupla de malucos que saiu de Quebec é, para o bem ou para o mal, algorítmico.
Então, se você está pirando o cabeção em AdP, deslumbrado com essa tal de “música para músico” e com possibilidades estéticas disruptivas, aqui vai uma lista de outras duplas de Math Rock tão ou mais interessantes que os canadenses mascarados.
LISTINHA SAFADA - DUPLAS DE MATH ROCK
.1 Lightning Bolt
Duo de Nova Iorque que desafiou as barreiras da performance e do som. Quase xamânicos, os shows dessa galera são permeados por uma catarse tão intensa que faz com que músicos e público sejam um só. Um dia ainda preciso escrever mais sobre eles, até porque quando vi o vídeo abaixo, fiquei tão impactado que passei dois anos sem conseguir entrar num estúdio com minha banda da época, que também era uma dupla de música maluca, o Yeti.
.2 Yeti
Se eu não colocasse minha própria banda aqui, seria muita fuleragem. Nós não somos famosos, não fizemos muitos shows e só gravamos um EP e um disco. Mas eu tenho certeza que não existe mais nenhum outro conjunto no mundo com um som assim. Já escrevi aqui na newsletter um texto sobre a experiência de compor essa doideira musical quando tinha só 21 anos de idade. Leia, escute e mostre pros seus pariceiros.
.3 Hella
O nome da música mais conhecida da banda é Biblical Violence. Isso já diz muito pra quem tem a sensibilidade certa. O batera do Hella, Zach Hill, ficou famoso por sua velocidade e precisão e há uns anos lançou uma banda nova chamada Death Grips, que fez muito mais sucesso que o Hella, mas não é tão legal. O lance aqui é que o guitarrista Spencer Seim tem uma abordagem muito peculiar do tapping, que o distancia de outros músicos do Math Rock que também usam a técnica.
.4 The Bronzed Chorus
É menos Math que as anteriores, mas traz uma abordagem inédita aqui na lista: o uso de loops, que são pequenas gravações sobrepostas feitas ao vivo, durante a performance, e repetidas em… looping. Ou seja, embora não manipule tanto as possibilidades rítmicas, o The Bronzed Chorus, cria composições muito mais ricas em timbres e linhas melódicas.
.5 Silian Rail
Banda californiana soturna e deliciosa, que até lembra o Yeti, mas sem o humor maluco e sem as subversões de expectativa. Mais voltado para a criação em estúdio, o duo eventualmente trabalha muitos arranjos e nuances em suas composições que dificilmente poderiam ser replicadas ao vivo sem mais alguns integrantes. E não tem nada de errado com isso.







Quando você falou da Emily Bona eu pensei "bem que eu conhecia essa estética de algum lugar" 😃
Valeu pela lista de bandas.
Agora o hype em torno do AdP tá diminuindo. Creio que o impacto algorítmico tá passando.
ótima análise, obrigado por apresentar lightning bolt