Amor, DST e folia: mais um Carnaval pra conta
Notas sobre como é viver na cidade que tem o maior Carnaval do mundo.
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Agora, boa leitura!
Primeiro, vamos aos números.
A Prefeitura do Recife divulgou, na última quarta-feira, 18 de fevereiro, que este ano o nosso Carnaval mobilizou 3,7 milhões de foliões. É o triplo do número de habitantes que a cidade tem. O orçamento da festa ficou na casa dos R$ 2,8 bilhões, cerca de 2,8 bilhões de vezes mais do que o rendimento desta newsletter (assine, por favor).
Já em Olinda, onde o bicho pega pra capar e o Carnaval de rua é o maior do mundo, o contingente de doidões nas ladeiras bateu a marca de 4 milhões de pessoas, sob um orçamento de R$ 1,5 bilhão. A cidade não tem 400 mil habitantes.
A soma das festas fica em torno de 8 milhões de foliões e R$ 4,5 bilhões. Muita coisa.
Esses números ajudam a compreender por que o Carnaval em Pernambuco é um evento diferente de tudo.
As cidades param, o comércio fecha e as pessoas trabalham duro, em perfeita sincronia, para ficarem mais doidas que o Batman. É uma catarse coletiva.
Longe dos polos carnavalescos, mal se vê gente pelas ruas. Entre a tradição dos blocos das ladeiras de Olinda e os shows multiculturais do Recife, tem festa até pra quem não gosta de festa.
Por isso, se você for um forasteiro, tome cuidado ao falar sobre o Carnaval de Pernambuco na presença de um nativo. A turma aqui tende a ser meio radical com a sua megalomania.
Infelizmente, porém, nasci na Florença dos Trópicos e vivo esse negócio há quase 35 anos, então eu posso falar. Aí vai uma sequência de notas sobre o maior Carnaval do universo:
Aqui, a festa nunca acaba. No melhor estilo da chama olímpica, a turma mantém o fogo (no cu) aceso o ano inteiro. Por isso, Olinda tem Carnaval todos os finais de semana.
Você pode não querer, não gostar e tentar ao máximo evitar, mas, em algum momento, você vai ver, sim, um show de Alceu Valença ou da Nação Zumbi absolutamente espremido na multidão.
Quanto mais você se afastar dos polos centralizados do centro do Recife ou de Olinda, mais o rolê tende a ficar experimental, com palcos lixosos, em que todos os músicos de uma banda dividem o mesmo amplificador, e a audiência transita entre um ou dois mendigos alcoolizados e alguns cachorros.
O Carnaval é lindo, mas tenha sempre isso em mente: a chance de você levar uma facada aleatoriamente existe.
O Carnaval das crianças tem a mesma alegria do Carnaval dos adultos, mas sem o loló, a cachaça, o aperto e a passação de nervoso. É o melhor Carnaval.
Você nunca encontra quem você quer, sempre acha quem você não quer e, no final das contas, a verdade é que nada disso importa, porque estão todos muito doidos pra pensar em qualquer outra coisa que não seja sobreviver a mais um dia.
Olinda é uma experiência pra profissional carnavalesco. É chão, ladeira, calor, barulho e pequenos roubos. Qualquer trajeto que você precise fazer ali pode levar horas. Por isso, vá preparado com dinheiro trocado na doleira e saiba que uma caganeira naquele lugar pode ser fatal.
O cheiro mais característico do Carnaval não é o do cangote da sua pessoa amada, é o mijo. Muitos mijos. Mijos de milhares de pessoas acumulados uns sobre os outros por dias e dias. É uma coisa brutal.
2026
Como tocar um selo independente sozinho é uma coisa que demanda muito esforço e tempo, este ano o meu Carnaval ficou retido apenas à noite da terça-feira, quando fui assistir ao show do Pato Fu, na Praça do Arsenal, que fica no centro do Recife e é um polo bastante tradicional.
O rolê foi clássico: fui com amigos de amigos que moravam perto de mim, no famigerado busão Expresso Folião, que passa nos shopping centers da Zona Sul e vai até as imediações do Marco Zero, onde rola o festival Rec-Beat.
Foi lá que vi dois shows antes de rumar à Praça do Arsenal: Zé Ibarra e Felipe Cordeiro.
O primeiro foi depressão total. Pra mim, a gota d’água rolou quando Zé Chibata pegou o microfone e soltou que “a próxima canção é uma crônica que eu escrevi sobre um desastre aéreo”. Porra, bicho, logo no Carnaval?
Já Felipe Cordeiro, que estava trajado como uma alface crespa, fez um show animado. Ele é um tipo de Falcão do reino dos vegetais, sei lá. Vi até a metade, quando deu a hora e rumei “pro” Arsenal, como falamos aqui.
O show do Pato Fu foi majoritariamente composto pelo repertório de Gol de Quem?, disco de 1995 que trintou ano passado. A banda tem uma performance muito sofisticada tecnicamente.
Ninguém toca com amplificador e, à exceção de John, que usa dois retornos de chão, toda a monitoração individual dos músicos é in ear.
Em outras palavras, isso significa que, se você estiver no palco sem fone nenhum, a única coisa que você vai ouvir é a bateria acústica, que ainda por cima fica rodeada por um biombo de acrílico para evitar vazamentos sonoros. Eu acho o máximo, essa engenharia.
Show terminado, fui conversar com John e Fernanda no camarote e, logo depois, peguei o beco. Bom revê-los sempre.
Novidades elefânticas no horizonte
O Elefantes Na Sala entrou oficialmente em 2026 com o fim da pré-venda da primeira Elefantologia de Artistas Brasileiros, no último dia 15.
O Carnaval foi de reestruturação do selo, com direito a embalagens infinitas e ilustrações editoriais para o projeto novo que virá em breve.
Em março, lançaremos um novo programa de assinaturas associado à newsletter, mas com foco em revistas digitais e impressas que misturam jornalismo e quadrinhos. Tá dando um trabalho danado pra fazer, mas ela é a aposta para que o Elefantes consiga sobreviver por mais um tempo. As coisas têm sido difíceis.
Em breve, trarei mais novidades sobre essa empreitada, mas garanto que será feito com o coração. Por isso, assine a newsletter pra não perder nada.
Valeu!









Esqueci de avisar que o Elefantes Na Sala já entrevistou John e Fernanda no estúdio do Pato Fu, em BH. Não perda:
https://www.youtube.com/watch?v=ecNIHsP3kp8&t=3614s
Meu namorado terminou comigo pouquíssimo antes do carnaval, seria esse um evento canônico na vida de todas as pessoas nesse período? Amei a news, como sempre!